terça-feira, 10 de novembro de 2009

Escutatória - Rubem Alves






Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
 Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
 É preciso também não ter filosofia nenhuma.
 Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
 Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
 Parafraseio o Alberto Caeiro:
Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
 É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
 Daí a dificuldade:
 A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
 Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
 Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
 E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
 Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
 No fundo, somos os mais bonitos...
 Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
 Há um longo, longo silêncio.
 Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
 Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
 Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
 Pensamentos que ele julgava essenciais..
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
 Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza...
 Na verdade, não ouvi o que você falou.
 Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
 Falo como se você não tivesse falado.
 Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
 É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
 Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
 O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
 E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
 Eu comecei a ouvir.
 Fernando Pessoa conhecia a experiência...
 E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.
 A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
 No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
 Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...
 Que de tão linda nos faz chorar.
 Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
 Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.
 Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.


sábado, 3 de outubro de 2009

NOSSAS MENTES E O INDIVIDUALISMO!


Joanna de Ângelis (espírito) através da preciosa pscografia de Divaldo Pereira Franco sabe, como ninguém, analisar o psiquismo humano. Acho mesmo que os livros da 'Série Psicológica' de Joanna/Divaldo deveriam ser usados diuturnamente por profissionais da psicologia e psiquiatria, são fantásticos!
No maravilhoso livro 'Amor, Imbatível Amor', ela discorre sobre o individualismo humano, este estado medíocre da evolução, em que o homem busca sobressair-se usando as pessoas para satisfazer os desejos do ego o que, na verdade, jamais proporciona realização plena, porque o 'dividir para imperar' só leva ao acúmulo de insucessos reais, que a mente do individualista interpreta como realizações vantajosas.
Fala-nos Joanna que o individualismo é a conduta de um 'ego conflitivo' e que aquele que sabe valorizar corretamente a si mesmo (valorizar-se corretamente = valorizar o 'eu moral'), também valoriza o bom trânsito no grupo social e sua própria importância dentro desse grupo.
Quando a pessoa se embrenha no individualismo, suas ambições, quando realizadas, não satisfazem, pelo contrário atormentam enquanto parecem satisfazer. Assim ocorrendo, a solidão e a insatisfação íntima vão esmagando e amargurando mais e mais a pessoa...
Joanna ensina ainda que neste contexto, o hemisfério esquerdo do cérebro - racional, analítico, matemático, lógico e casuístico - ignora o poder do direito - intuitivo, imaginativo, transcendental, holístico de artístico - quando, na verdade, nenhum dos dois deve sobrepujar o outro, e sim trabalharem em equilíbrio e harmonia.
A pessoa individualista suprime suas emoções e se torna amarga e ingrata com a vida, muito embora não se enxergue desta maneira.
Quando a pessoa se isola, passa a ver o mundo e as outras pessoas sob uma ótica distorcida, perdendo o contanto com a intuição e a beleza que há na simplicidade. Vai assim perdendo a capcidade de identificar as próprias falhas, aumentando seus conflitos internos e a incapacidade e combater seus próprios medos.
O individualimo então, não é senão um dos muitos recursos de fuga das propostas da vida. Todo o individualista sucumbe às sombras do transtorno íntimo que foge para a loucura ou para o suicídio.
Joanna termina nos ensinando que os objetivos não conflitivos da vida são conseguidos quando os repartimos com o grupo social, onde amealhamos energias para lutar e vencer, de forma saudável e equilibrada, sem projeções ou fantasias.
DEUS OS ABENÇOE IMENSAMENTE!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Nos domínios da fé e da razão


Mauro Baamonde, 



No conjunto de perspectivas da atualidade, nota-se que a ciência tem alcançado significativo êxito no que se refere às descobertas que direcionam todo o progresso da humanidade. São indiscutíveis os avanços que as abordagens científicas trazem para a sociedade, mas o que se nota hoje em dia, é um enfrentamento da ciência com a fé, combate este em que ambas estão em lados opostos e lutam para ter a razão em suas opiniões. 

A ciência de um modo geral caracteriza-se por ser eminentemente materialista.Tendo como referência, por exemplo, os estudos de células tronco embrionárias e a questão do aborto, observaremos que existe uma separação bastante sedimentada entre a fé e a razão, ou melhor, uma separação entre a ciência humana e o pensamento religioso. 

Esta tendência de separação absoluta entre fé e razão, não aconteceu em toda a história do conhecimento humano. Em outros termos, existiram momentos onde a fé e a razão estavam num caminho paralelo, e em outras circunstâncias onde ambas eram diametralmente justapostas. Houve, entretanto, no século XIX, a existência de um momento único onde uma nova doutrina buscou trazer novamente a fé para os domínios da razão, momento este em que elas pareciam estar definitivamente em lados opostos. 

Caracterizando historicamente, devemos apontar o período Renascentista do século XVI como o marco inicial da separação da fé e da razão. O Renascimento inaugurou a chamada Idade Moderna, e com isso, dentro de todo um processo e não de forma abrupta, as reflexões deste tempo diferenciou-se dos da Idade Média. O pensamento a partir de então é pautado na idéia do humanismo, isto é, o homem como centro de todas as decisões. Na Idade Média, por outro lado, Deus é o centro de todas as coisas. 

Outra diferença a se destacar, é o pensamento racionalista da renascença que se difere ao pensamento místico da Idade Média, razão que determina os usos e costumes distintos de ambos os tempos. 

As mudanças nas quais foram iniciadas no Renascimento, só serão efetivamente implementadas no século XVIII com o Iluminismo, onde efetivamente a fé e a razão começam a ter contornos totalmente diferenciados, devido ao fato dos "filósofos das luzes" serem anticlericais, ou seja, contrários aos desígnios da igreja. Os ideais iluministas influenciaram o liberalismo econômico que deu uma propulsão maior ao capitalismo, e a Revolução Francesa que desencadeou o início do Estado laico que compreende a idéia de uma separação definitiva entre o Estado e a Igreja. Mudanças significativas ocorreram em toda a sociedade e que encaminharia inevitavelmente para o descrédito da idéia da harmonia entre a fé a razão. 

O Espiritismo surge, contudo, com a proposta de trazer a fé e a razão para um domínio só, reavaliando o conceito de verdades dogmáticas, que se caracterizam por verdades absolutas e fora de qualquer tipo de investigação imparcial. Allan Kardec diz que a fé verdadeira é aquela que consegue enfrentar face a face a razão em todas as épocas da humanidade. Verifica-se desta forma que o Espiritismo rompeu com todo o padrão de uma época, restituindo uma separação que para todos era algo inevitável. A ciência espírita com suas abordagens e com os fatos delas decorrentes, prova de maneira clara e objetiva a imortalidade da alma e toda uma decorrência de fatores que diz respeito a essa idéia, como a reencarnação e a comunicabilidade com os espíritos. 

.Verificamos que uma parte bem reduzida da ciência terrena já começa a prestar atenção em todo um mundo de possibilidades de entendimento acerca da vida espiritual, que sempre esteve ligada a nossa. Se tivermos como ponto de partida a idéia de que o mundo material e o espiritual estiveram sempre em permuta constante, isso corresponde a dizer que necessariamente para entendermos a nossa vida material, devemos compreender o mundo que o complementa, isto é, o mundo espiritual. 

Portanto, o surgimento do Espiritismo bem como sua atuação na atualidade, é um marco para a história da humanidade, pois dentro de uma série de perspectivas, ele esteve na vanguarda de seu tempo, e hoje se afirma de maneira inquestionável na mesma proporção em que são inquestionáveis as suas descobertas e conclusões. 



Fonte: Verdade e luz, edição nº 260, Setembro de 2007 

Federação Espírita do Estado de Mato Grosso – www.feemt.org.br