terça-feira, 28 de julho de 2009

ESTUDOS ESPÍRITAS

Convulsionários

Vejamos, inicialmente, o que as enciclopédias definem como convulsionários:

• "Fanáticos franceses do século XVIII que tinham convulsões e se infligiam torturas físicas às quais se declaravam insensíves." (Dicionário da Academia Brasileira de Letras)
• "Fanáticos franceses jansenistas do começo do século XVIII, aos quais a exaltação religiosa causava convulsões." (Koogan Larousse)
• "Fanátivos jansenistas do século XVIII em quem a exaltação religiosa produzia convulsões e que se infligiam diversas torturas." (Lello Universal)

Jansenista é relativo ao jansenismo, isto é, uma doutrina religiosa muito difundida na França, entre os séculos XVII e XVIII, que pretendia limitar a liberdade humana partindo do princípio de que a graça é concedida a certas pessoas desde o seu nascimento, e recusada a outras. Era assim designado porque seu autor era o bispo católico holandês Cornélio Jansênio, falecido em 1638.
Os jansenistas protagonizaram um fenômeno singular no cemitério de Saint-Médard, em Paris. Por volta do ano de 1727, seguidores daquela doutrina iam fazer preces no túmulo do diácono François Pâris, que professara o jansenismo e que fora reconhecidamente bom e caridoso. Algumas dessas pessoas, ao fazerem suas preces junto ao túmulo do diácono, eram tomadas de convulsões (daí o nome convulsionários). Outros diziam que ficaram curados de suas doenças. A cura dos doentes se operava pelo simples toque na pedra tumular ou pela poeira que encontravam em redor e que tomavam com qualquer bebida ou aplicavam sobre as úlceras. Kardec relata esse fato na Revista Espírita de novembro de 1859.
Era possível observar fenômenos estranhos nas pessoas durante as convulsões:

• A faculdade de resistir a pancadas tão terríveis que os corpos deveriam ficar esmagados;
• A de falar línguas ignoradas ou por eles esquecidas;
• Um desdobramento extraordinário de inteligência: os mais ignorantes entre eles improvisavam discursos sobre a graça, sobre os males da Igreja, sobre o fim do mundo, etc.;
• A faculdade de ler o pensamento;
• Postos em contato com os doentes, experimentavam as dores destes e exatamente nos mesmos lugares.

A insensibilidade física produzida pelo êxtase deu lugar a cenas atrozes. A loucura chegou a ponto de realmente crucificarem vítimas infelizes, de lhes fazer sofrer todos os martírios da Paixão do Cristo. E estas vítimas solicitavam as terríveis torturas, designadas entre os convulsionários pelo nome de grande socorro.
Como naquelas cenas de convulsões a histeria desempenhava grande papel e a indecência e a crueldade se misturavam com o fanatismo, o arcebispo de Paris proclamou que aqueles chamados milagres eram falsos. Por isso, em 27 de janeiro de 1732, as autoridades proibiram a entrada no cemitério de Saint-Médard, o que levou um sarcástico a escrever no portão do cemitério: "Proíbe-se, em nome do Rei, que Deus faça milagres neste local." Os mesmos fanáticos passaram então a realizar suas convulsões em casas particulares, o que ainda durou até a Revolução Francesa. Na opinião de muita gente na época, o túmulo do diácono Pâris foi o túmulo do jansenismo, tal a repercussão negativa dauelas cenas provocadas pelos convulsionários.
Como se vê, o fenômeno atraiu a curiosidade das pessoas e mesmo o filósofo Blaise Pascal se juntou ao jansenismo. Kardec questionou os Instrutores Espirituais sobre o assunto e recebeu como resposta que a causa originária do fenômeno que se dá com os convulsionários é o magnetismo, sendo que os Espíritos também desempenham neles papel muito importante. Esses Espíritos são de natureza pouco elevada, porquanto os Espíritos superiores não se podem deleitar com tais coisas (LE 481).
No que toca à insensibilidade física que se observa em alguns convulsionários, assim como em outros indivíduos submetidos às mais atrozes torturas, em alguns é, exclusivamente, efeito do magnetismo, que atua sobre o sistema nervoso, do mesmo modo que certas substâncias. Em outros, a exaltação do pensamento embota a sensibilidade. Dir-se-ia que nestes a vida se retirou do corpo, para se concentrar toda no Espírito. Quando este está vivamente preocupado com uma coisa, o corpo nada sente, nada vê e nada ouve (LE 482).
Kardec foi além (ou melhor, foi ao além). Ele evocou o Espírito do próprio diácono François Pâris para obter maiores esclarecimentos. O diácono Pâris disse que nem de leve participou, como Espírito, dos acontecimentos do cemitério de Saint-Médard. Disse que muitos Espíritos, de categoria pouco elevada, deles participaram. Disse ainda que os fanáticos exploraram suas opiniões religiosas e o pouco bem que procurava fazer, mas de nada sabia antes. Kardec ouviu ainda a opinião do Espírito de São Vicente de Paulo, que confirmou ser o diácono Pâris completamente estranho àqueles fatos que se passaram ao redor de seu túmulo, nos quais um grande papel foi representado pelo charlatanismo.
Para saber mais:
• José Náufel. Do ABC ao infinito. 2º Volume: Espiritismo experimental - fenomenologia e mediunidade. Editora Éclat;
• Edemilton Cabral de Souza. Os convulsionários e sua história. In: Revista Reformador, outubro de 1985, página 21;
• Allan Kardec. Os convulsionários de Saint-Médard. In: Revista Espírita, novembro de 1859;
• Sobre a insensibilidade física dos convulsionários e dos mártires, vide A Gênese, Cap. 14, item 29.

4 comentários:

  1. Vivendo e apredendo. Confesso que não conhecia o assunto! Obrigada Maurício.

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  2. Esrou pesquisando sobre o tema e esse post não acrescentou muita coisa.

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  3. Obrigado Lair,se acaso tiver alguma informação a mais para acrescentar, é só enviar para visaoespirita@malinverne.com.br e verei a possibilidade de postar aqui no Visão Espírita.

    Saúde e paz sempre.

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  4. Venho sofrendo de crises convulsivas. Já fiz todos exames médicos e nada acusa. O que devo fazer? Onde recorrer? A quem recorrer?

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